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O jogo sujo começou: Sergipe vive a eleição do cinismo e da faca nas costas

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    Redação
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa

Em Sergipe, eleição não tem data: tem vício. A política por aqui não espera o calendário oficial, ela atropela. Campanha começa antes do apito, alianças são montadas em salas fechadas e o eleitor só descobre o jogo quando o resultado já está parcialmente combinado. No menor estado do Brasil, o poder não se disputa — se administra com pressa, vaidade e muita contradição.


No Palácio, o clima é de soberba. A ausência momentânea de um adversário à altura criou a ilusão de que a reeleição já estaria garantida, carimbada, homologada. Há quem fale, sem nenhum pudor, em vitória por W.O. Um erro clássico da política: confundir silêncio com aprovação e ausência de confronto com consenso.


Enquanto isso, a crise da Iguá é tratada como um incômodo menor, quase um ruído técnico. Mas fora da bolha governista, o problema é visto como aquilo que realmente é: um desgaste latente, um calo que, ignorado, vira abscesso. E abscesso, quando estoura em ano eleitoral, não respeita marqueteiro nem discurso ensaiado.


Fábio Mitidieri sabe disso. Não é ingênuo. Mas aposta no velho método da política profissional: empurrar o problema com a barriga e amarrar alianças suficientes para atravessar a tempestade sem se molhar. Sua estratégia não é resolver crises — é sobreviver a elas. E, para isso, Brasília virou o porto seguro.


É aí que Lula e o PT entram no jogo. Não por afinidade, não por identidade programática, mas por conveniência pura. O governo estadual flerta com o petismo como quem busca um seguro eleitoral: garante proteção, neutraliza adversários e ainda rende boas fotos para a campanha.


Os sinais dessa operação são antigos. O evento grandioso do União Brasil, que colocou André Moura no centro do tabuleiro como liderança incontornável, foi recebido com frieza cirúrgica pelo governo. Em seguida, veio a famosa foto da “união”, cuidadosamente produzida para vender estabilidade. Mas foto, em política, é maquiagem. Não cura fratura.


Quando André Moura resolveu ocupar espaço, dominando a agenda da mídia com seu almoço-entrevista, o incômodo virou evidente. Não foi o evento que incomodou — foi o recado. André mostrou que tem luz própria, trânsito e apetite político. E governos que gostam de mandar sozinhos não convivem bem com aliados que não pedem permissão para existir.


A reação veio, como sempre, em doses homeopáticas. Apoios que não se confirmam, articulações que não acontecem, aliados deixados à própria sorte. O anúncio de Sérgio Reis em apoio a Alessandro Vieira apenas escancarou o óbvio: o jogo já está sendo jogado com cartas marcadas, e nem todos sentam à mesa principal.


Publicamente, Fábio Mitidieri repete o mantra da lealdade e sustenta André Moura como candidato ao Senado. Nos bastidores, porém, a encenação é mal disfarçada. Nem a família do governador teve coragem de anunciar o segundo voto ao Senado. E não é segredo para ninguém que o nome que agrada no núcleo duro do poder atende por Alessandro Vieira.


Esse silêncio não é ingenuidade. É cálculo.


É nesse ambiente que surge Rogério Carvalho como “plano B”. Ou melhor: como plano A disfarçado. Sua aproximação simbólica com o governo — marcada por elogios públicos e gestos calculados — não tem nada de casual. Política não é feita de gentileza; é feita de interesse. E Rogério sabe jogar.


A equação é simples e cínica: oferecer um palanque ao PT em troca do silêncio do partido em Sergipe e do peso da máquina federal na campanha estadual. Uma troca confortável para Brasília e estratégica para o governador. Mas toda negociação tem vítima colateral.


E a vítima tem nome: André Moura.


Mantido oficialmente como aliado, ele parece cada vez mais tratado como um estorvo. Um aliado forte demais, autônomo demais, barulhento demais para um projeto que exige obediência e controle. Seu erro não foi errar — foi crescer além do que o Palácio considera aceitável.


A “opção” Rogério Carvalho, portanto, não é escolha eleitoral. É cirurgia política. Um movimento para preservar o poder, ainda que isso signifique descartar aliados históricos como se fossem peças defeituosas.


O problema é que, em Sergipe, quem é descartado não costuma sair em silêncio. Sai falando. Sai articulando. Sai cobrando. E, quando isso acontece, o estrago costuma ser bem maior do que o governo imagina.


A eleição já começou. E, ao que tudo indica, não será limpa — nem tranquila.

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