O “Sistemão” da Prefeitura de Aracaju começa a ruir: exonerações expõem desgaste de Emília Corrêa e cobram explicações sobre o principal núcleo da gestão
- Cleiton Bianucci

- há 11 minutos
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As exonerações de Hugo Esoj da presidência da Emsurb e de Rodrigo Thyago da Silva Santos da Seplog anunciadas neste sábado, 15, não podem ser lidas apenas como ajustes administrativos. Oficialmente, a Prefeitura de Aracaju tratou as mudanças como uma reorganização voltada à eficiência dos serviços. Mas os fatos contam uma história mais incômoda: as saídas ocorreram depois de meses de denúncias nunca explicadas, sindicâncias, questionamentos no Legislativo, decisões judiciais e apontamentos diversos de órgãos de controle.
É nesse ponto que o discurso de ruptura de Emília Corrêa com um suposto “Sistemão” entranhado no serviço público começa a bater de frente com a prática do governo. A gestão que venceu prometendo enfrentar esse tal “Sistemão” agora vê peças do seu próprio tabuleiro serem removidas em meio a suspeitas que atingem áreas estratégicas da administração. No plano político, as baixas alcançam nomes indicados pelo arranjo que desde a campanha influenciava a então candidata, conforme registrado no livro “É Desse Jeito: Emília Corrêa Fura a Bolha do Sistemão”, do jornalista Nubem Bomfim, obra que relata a vitória de Emília.
No caso de Hugo Esoj, a contradição é direta. Dias antes, Emília Corrêa havia sustentado que não o afastaria sumariamente do cargo porque, contra ele, não haveria “materialidade”, diferentemente do episódio da Secretaria Municipal da Educação, onde o então diretor administrativo-financeiro César Costa Azevedo Dias foi exonerado após a apreensão de R$ 240 mil em espécie pela Polícia Civil em seu carro. A Câmara Municipal de Aracaju registrou cobranças públicas sobre o caso da Semed, com vereadores exigindo explicações do Gabinete da Prefeita.
A pergunta agora é inevitável: se antes não havia materialidade para afastar Hugo Esoj, o que mudou? A gestão finalmente confirmou algum fato novo? A prefeita recebeu algum relatório, decisão judicial, parecer jurídico, recomendação política ou informação relevante que tornou a permanência dele insustentável? Ou a exoneração foi apenas a forma encontrada para estancar o desgaste político?
O histórico da Emsurb ajuda a explicar a pressão. A gestão de Hugo Esoj foi atravessada por questionamentos sobre dispensas emergenciais, limpeza urbana e contratos de apoio técnico. O TCE/SE concedeu prazo para a Emsurb se manifestar sobre denúncias em dispensas de licitação relacionadas à locação de caminhões-pipa e à coleta de resíduos sólidos urbanos, com apontamentos sobre prazo exíguo para apresentação de propostas, sessão fechada para abertura de envelopes e divergências em planilhas de preços. Auditorias e pareceres do controle externo identificaram vícios de competitividade nas contratações sob sua gestão.
Além disso, a Câmara Municipal questionou o Contrato nº 42/2025, por inexigibilidade, no valor de R$ 300 mil, firmado com a Ziguia Engenharia Ltda. para consultoria na elaboração de edital de resíduos sólidos. O ponto levantado pelos vereadores foi a contradição entre contratar consultoria externa e, ao mesmo tempo, ter custeado a capacitação de servidores públicos em licitações.
A saída de Thyago Silva da Seplog tem outra natureza, mas gravidade política semelhante. A Folha de S.Paulo revelou que uma servidora da Prefeitura de Aracaju teria pedido contribuições financeiras a subordinados, em grupo de WhatsApp chamado “Timaço DAF Seplog”, para financiar uma possível campanha do então secretário. A reportagem registrou que a mensagem foi enviada pela coordenadora-geral Nataly Rocha, em 24 de março de 2025, e que a Prefeitura informou a abertura de sindicância administrativa.
A Câmara também repercutiu o caso. O vereador Elber Batalha, que tem feito várias e recorrentes denúncias contra a gestão, cobrou a exoneração dos envolvidos e classificou a situação como “gravíssima”, citando uma denúncia de que servidores comissionados estariam sendo pressionados a contribuir financeiramente para o projeto eleitoral de Thyago Silva – a dúvida é: seria a famosa “rachadinha”?
A Seplog, vale lembrar, não é uma secretaria lateral. É a pasta responsável por planejamento, orçamento, gestão, compras, pessoal e processos estruturantes da máquina pública. Quando uma denúncia desse tipo surge dentro dela, o problema não é apenas político-eleitoral. É administrativo, ético e institucional.
O quadro exposto cobra uma resposta que Emília Corrêa ainda não deu de forma convincente. Se as exonerações foram meros ajustes, por que ocorreram justamente após o acúmulo desses desgastes? Se foram motivadas por irregularidades, quais foram os elementos considerados? Se no caso da Educação houve “materialidade”, como a própria prefeita sugeriu ao falar dos R$ 240 mil apreendidos, por que a gestão ainda não detalhou a origem do dinheiro, o contrato relacionado, os responsáveis pela fiscalização e as medidas internas adotadas?
Emília tem reagido às crises com notas, substituições pontuais e tentativas de deslocar a apuração para outros órgãos, como se a gestão dele nada tivesse a ver isso tudo. Mas governar não é apenas trocar nomes quando o desgaste fica insustentável. É abrir documentos, determinar auditorias, afastar preventivamente quando necessário e explicar ao contribuinte o que aconteceu.
O “sistemão” que Emília prometeu combater começa a, ao que indica, a ruir não por força da oposição ou de um isolamento político da prefeita, mas pelo peso das contradições internas da própria gestão. A prefeita deve esclarecimentos sobre as demissões, sobre os critérios usados para manter ou afastar auxiliares e sobre o que de fato encontrou nos bastidores da Emsurb, da Seplog e da Educação.
Afinal, se as peças começaram a cair, a população tem o direito de saber se foi por estratégia administrativa ou porque a engrenagem já não suportava mais a pressão dos fatos.









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