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As lágrimas de crocodilo do camaleão Alessandro Vieira

  • Foto do escritor:  Cleiton Bianucci
    Cleiton Bianucci
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura
Imagem ilustrativa
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Deve despertar curiosidade no eleitorado-raiz do senador Alessandro Vieira — sim, eles e elas existem, resistindo bravamente ao tempo e aos fatos — essa nova configuração de postura pública adotada pelo parlamentar. Sabe-se do notório pendor camaleônico do “delegado” (título que, curiosamente, ele fez questão de resgatar agora, às vésperas do pleito) quando o objetivo é tirar alguma vantagem política e eleitoral. A metamorfose ambulante de Sergipe ataca novamente!


Quem não se lembra que o senador e ex-candidato ao governo de Sergipe, na eleição de 2022, declarou-se “pardo” ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)? A informação, que já constava em seu registro de candidatura e no sistema DivulgaCand desde 2018, rendeu debates acalorados. Afinal, a genética e o espelho pareciam discordar da certidão. Em dezembro de 2023, o TRE-SE encerrou o mistério dermatológico e entendeu, vejam só, que Alessandro Vieira é branco. A brincadeira cromática gerou impacto financeiro: o tribunal condenou o PSDB, partido ao qual era filiado na época, a devolver mais de R$ 33 mil de recursos eleitorais aos cofres públicos. Uma autodeclaração que custou caro.


Além de transmutar a própria pele como tática de camuflagem eleitoral, as contradições do senador Alessandro Vieira podem ser facilmente verificadas a partir de dados públicos e declarações oficiais. O homem que se elegeu com um inflamado discurso crítico à perpetuação no poder, defendendo o fim da reeleição e o mandato único como dogmas morais, hoje é pré-candidato à reeleição pelo MDB. Chegou a compor a chapa governista de Fábio Mitidieri, a quem criticava com veemência em 2022, mas foi recentemente “rifado” do grupo após conflitos públicos com o parceiro de chapa, o ex-deputado federal André Moura. A coerência, pelo visto, tem prazo de validade.


Alessandro Vieira sempre defendeu a transparência e o fim das “emendas de comissão” (o famigerado Orçamento Secreto), criando inclusive um louvável Edital de Emendas Participativas para que a população pudesse escolher o destino dos recursos. Belas palavras. A prática, no entanto, é outra: agora, o senador faz uso intenso de emendas individuais e de bancada, divulgando-as aos quatro ventos como conquistas monumentais para Sergipe. E adivinhem a quem coube a “gestão” política desses recursos públicos? Ao advogado e empresário Milton Andrade, atual presidente da agência estadual Desenvolve-SE e aliado histórico do delegado. A velha política de balcão com roupagem nova.


No início de sua carreira política, o senador bradava contra o volume absurdo de recursos públicos destinados a campanhas eleitorais. Hoje, em busca da reeleição, a história é outra. Aliás, Alessandro Vieira utiliza o Fundo Eleitoral desde 2018. Em 2022, como candidato ao Governo de Sergipe, recebeu um dos maiores repasses do fundo no estado, abocanhando cerca de R$ 5,2 milhões. É a materialização do ditado popular “faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço” em sua mais pura essência. A moralidade tem um preço, e aparentemente ele gira na casa dos milhões.


O auge da contradição, porém, ocorreu recentemente, quando da apresentação do melancólico relatório da CPI do Crime Organizado — a mesma comissão que, no passado, ele tentou usar como palanque para enredar adversários políticos e classificá-los como “membros de facções criminosas”. Apesar de reprovado pela maioria de seus colegas (por 6 votos a 4), o texto do relator continha um “erro” muito peculiar, que acabou por gerar uma enxurrada de críticas. Simplesmente, Alessandro Vieira “esqueceu” de pedir o indiciamento de líderes das maiores organizações criminosas do país, como o Comando Vermelho e o PCC. Em vez de mirar nos chefões do tráfico, preferiu os holofotes: acusou ministros do STF e o procurador-geral da República, num espetáculo pirotécnico que resultou em nada além de vergonha alheia.


Por tudo isso, o eleitorado-raiz de Alessandro Vieira deve estranhar profundamente essa mudança de postura pública adotada pelo parlamentar. De implacável e destemido combatente do crime quando foi delegado em Sergipe, o senador passou a derramar, em seguidas entrevistas, lágrimas de crocodilo. Chora citando o ministro do STF Gilmar Mendes, chora citando o senador Rogério Carvalho e André Moura, chora maldizendo a imprensa. Reclama de ameaças, posa de vítima e terceiriza a culpa por seus próprios fracassos políticos.


É tanto choro, tanta lamúria, que muita gente passou a acreditar que ele já jogou a toalha — ou seja, assimilou o golpe provocado por tantas contradições expostas e resolveu, intimamente, desistir da reeleição! Para alguém que construiu sua imagem sobre a rigidez da lei, uma saída honrosa (e talvez a única que lhe reste) seria retomar aquele velho e surrado discurso crítico à perpetuação no poder, defendendo o fim da reeleição e finalizando sua carreira política com um único e “inesquecível” mandato. Seria o último ato de coerência de um camaleão que, por fim, perdeu as cores.

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