Um “novo sistemão” na Prefeitura de Aracaju?
- Cleiton Bianucci

- há 1 dia
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A política sergipana assiste, em 2026, ao desmoronamento de uma das narrativas eleitorais mais eficientes dos últimos pleitos: a de que a atual gestão municipal representaria a ruptura definitiva com um suposto “sistemão” que controlava as engrenagens da Prefeitura de Aracaju (PMA). O grupo que chegou ao poder denunciando o “modus operandi” tradicional parece ter incorporado, com espantosa rapidez, práticas muito parecidas com aquelas que antes dizia combater.
O que os dados oficiais, os contratos públicos e as operações policiais recentes sugerem é um processo acelerado de assimilação. E o ponto de convergência mais sensível está na Secretaria Municipal de Educação (Semed). É dessa repartição, onde um diretor foi flagrado com R$ 240 mil em espécie, que também brota um contrato milionário com a empresa MF Comércio Empreendimentos e Serviços Ltda., conhecida como Equipaflex, conforme reportado pelo portal Mangue Jornalismo na matéria “Cunhada de pré-candidato ao Senado apoiado por Emília é sócia de empresa com R$ 20 milhões em contratos na Prefeitura de Aracaju”.
São, obviamente, episódios distintos, com naturezas diferentes, sem relação direta automaticamente estabelecida e que precisam ser analisados separadamente. Mas o fato de ambos gravitarem em torno da mesma pasta transforma a Secretaria Municipal da Educação no epicentro de uma crise política e administrativa que a Prefeitura de Aracaju ainda não conseguiu explicar de forma convincente.
No caso da Equipaflex, chama atenção que a empresa — cujo objeto principal registrado na Receita Federal é, curiosamente, o comércio de artigos de colchoaria — tenha firmado contratos que somam R$ 19,57 milhões com a Semed para fornecimento de fardamento e kits escolares. O montante inclui uma dispensa emergencial de R$ 7,44 milhões, em 2025, e novos contratos para fornecimento de uniformes escolares em 2026. Detalhe interessante: uma das sócias da empresa é Kaynara Silva Maia, cunhada do delegado André David, ex-secretário municipal de Segurança e pré-candidato ao Senado com apoio da prefeita Emília Corrêa.
Já no caso do diretor de Administração e Finanças da Semed, César Costa Azevedo Dias, flagrado com dinheiro em espécie, fato que levou o Centro de Operações Policiais Especiais da Polícia Civil a requisitar documentos e deflagrar diligências na própria secretaria, a reação da prefeita foi exonerá-lo. Mas a resposta rápida, em vez de encerrar o assunto, abriu novas perguntas. Por que demitir sumariamente o funcionário flagrado com dinheiro vivo, em vez de afastá-lo e instaurar uma apuração interna ampla, transparente e documentada? Havia algo mais a ser contido antes que o caso ganhasse proporções ainda maiores?
A vinculação da secretaria aos irmãos Edivan e Eduardo Amorim – este último também pré-candidato ao Senado – apenas reforça a percepção de que o pragmatismo fisiológico engoliu o discurso de pureza administrativa. O que antes era apresentado como ruptura começa a se parecer, cada vez mais, com uma reacomodação de forças dentro da mesma lógica de poder.
Esta, aliás, não é a primeira “traquinagem” orçamentária que a gestão precisa justificar sob o argumento da excepcionalidade. Em junho de 2025, a Prefeitura de Aracaju já havia recorrido à dispensa de licitação para alugar um SUV blindado destinado ao gabinete da prefeita, ao custo anual de R$ 312 mil, junto à Gold Transportes e Serviços Ltda. O caso, denunciado na Câmara Municipal sob suspeitas de superfaturamento e falta de necessidade prática, teve como principal anteparo técnico e político o próprio André David.
Na ocasião, o então secretário de Segurança assumiu o protagonismo da defesa. Blindou politicamente a prefeita ao afirmar que ela teria recusado o veículo, mas que ele, com base em critérios de inteligência e em um suposto “protocolo universal de segurança”, teria imposto a necessidade do gasto para proteger “o cargo”. O argumento técnico, porém, serviu também para deslocar o centro da denúncia: o valor contratado, a dispensa de licitação e a real necessidade da despesa.
O cenário atual da Prefeitura de Aracaju revela uma gestão enredada nas mesmas ferramentas que antes condenava: dispensas de licitação milionárias, parentes de aliados no entorno de contratos vultosos, secretarias loteadas politicamente e flagrantes de dinheiro em espécie envolvendo ocupantes de cargos estratégicos.
Na política, o benefício da dúvida dura até o momento em que os Diários Oficiais, os contratos e as investigações policiais começam a falar. Em Aracaju, eles já não apenas falam. Eles gritam! E o que parecem dizer é incômodo para quem venceu prometendo destruir o velho “sistemão”: talvez ele não tenha acabado. Talvez apenas tenha mudado de mãos, preservando intacto o seu apetite.
É desse jeito!
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