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O assassinato da reputação de uma mãe de autista, a herança do delegado André David, o silêncio da prefeita Emília Corrêa e a imprensa oportunista

  • Foto do escritor:  Cleiton Bianucci
    Cleiton Bianucci
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

A combativa ex-defensora pública Emília Corrêa, que no rádio se apresentava como a voz dos excluídos; a ex-vereadora que cobrava, da tribuna e pela imprensa, que a população pobre fosse tratada com respeito; a política que prometeu extinguir o “sistemão” — essa Emília parece ter desaparecido. No lugar dela, surge a prefeita que governa “do seu jeito”: distante da dor dos vulneráveis, silenciosa diante dos excessos da própria gestão e cada vez mais cercada por uma lógica de poder que transforma reivindicação social em caso de polícia.


A mãe de adolescente autista e líder comunitária Viviane Cristina, detida pela Guarda Municipal de Aracaju no dia 2 de julho, durante um protesto na Zona Norte da capital, continua sendo revitimizada. Naquele ato, dezenas de mães atípicas cobravam direitos básicos: professores de apoio e cuidadores para seus filhos. Nada mais legítimo. Nada mais humano. Mas, em vez de acolhimento, receberam repressão. Em vez de escuta, viatura. Em vez de resposta da prefeitura, a condução à delegacia.


Quem esperava da prefeita Emília Corrêa, por toda a sua história pública, solidariedade a uma mulher pobre, preta, mãe atípica e moradora de uma comunidade vulnerável — desassistida justamente pela ausência de serviços da gestão municipal —, encontrou o silêncio. E mais do que silêncio: encontrou uma tentativa evidente de deslocar o foco do problema. De vítima de uma abordagem truculenta, Viviane passou a ser tratada como ameaça à ordem pública; depois, como problema de imagem para a gestão e, agora, como alvo de uma operação de desgaste moral alimentada por setores ligados à comunicação política da Prefeitura e reverberada por parte da imprensa.


As questões centrais levantadas pelas mães continuam sem resposta. Passados quatro dias do episódio, Emília Corrêa ainda não explicou por que crianças neurodivergentes seguem sem o acompanhamento adequado. Não disse por que faltam professores de apoio e cuidadores. Não esclareceu por que a mediação do conflito não contou, desde o início, com a presença efetiva de equipes pedagógicas, sociais ou do Conselho Escolar. Tampouco anunciou uma apuração rigorosa sobre a conduta da Guarda Municipal.


O silêncio da prefeita permite uma inferência política incômoda: talvez não haja disposição real para investigar a Guarda; talvez não haja pressa para resolver a falta de cuidadores; talvez a prioridade da gestão seja apenas controlar o dano à própria imagem. Mais grave ainda: ao não se posicionar, Emília Corrêa transmite a impressão de endossar a condução de uma mãe de adolescente autista à delegacia por cobrar um direito básico. Ao tolerar esse tipo de prática, aproxima sua gestão da política de intimidação contra pobres, pretos e periféricos que ganhou força na Guarda Municipal sob a influência do ex-secretário de Segurança André David.


A herança deixada por André David não parece ser apenas administrativa — e parece não incomodar Emília Corrêa. É uma cultura. Uma mentalidade. Um método. A lógica de tratar conflito social como ocorrência policial; de enxergar ambulantes, guardadores de carro, moradores de periferia e mães em desespero como ameaça à ordem; de confundir autoridade com truculência. E essa contaminação não se limita à tropa: alcança também parte da imprensa.


Causa espanto ver comunicadores deslocando o debate da conduta da Guarda Municipal para a tentativa de desqualificar a líder comunitária. Em vez de perguntar por que uma mãe atípica foi detida ao cobrar apoio para o filho, preferem investigar sua biografia, seu currículo, suas posições políticas ou sua atuação comunitária. É a inversão completa da lógica: o Estado erra, a Guarda reprime, a prefeitura silencia — e a vítima vira ré no tribunal da opinião pública.


Quando valores humanos são trocados por dividendos políticos e econômicos, algo vai muito mal na sociedade. Quando uma ex-defensora pública, para preservar a imagem da própria gestão, silencia diante da truculência e permite o assassinato de reputações, a conclusão é amarga: pela manutenção do poder, algumas pessoas se tornam capazes de quase tudo. E quando parte da imprensa elogia o lado agressor, relativiza a violência institucional e trata como caso de polícia a própria vítima — mulher, preta, pobre, mãe atípica e moradora de comunidade —, constata-se que, para alguns, os fins justificam os meios.


O caso de Viviane Cristina não é apenas sobre uma abordagem da Guarda Municipal truculenta e desproporcional. É sobre o tipo de cidade que Aracaju está se tornando: uma cidade onde uma mãe que cobra educação inclusiva é conduzida à delegacia; uma cidade onde a ausência de professores e cuidadores é substituída pela presença da força policial; uma cidade onde a prefeita que prometia defender os excluídos agora se esconde quando eles batem à porta de sua gestão.


De fato, alguma coisa está muito fora da ordem em Aracaju.

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