CPI sem criminosos: o relatório de Alessandro Vieira que investiga tudo, menos o crime
- Redação

- há 8 horas
- 2 min de leitura
O relatório da CPI do Crime Organizado e a obra-prima do esquecimento estratégico do senador Alessandro Vieira

É preciso reconhecer um talento singular do senador Alessandro Vieira. Delegado de carreira da Polícia Civil de Sergipe, passou anos aprendendo a identificar padrões criminosos. Mas, como relator da CPI do Crime Organizado, operou um milagre: entregou um relatório final sem apontar um único criminoso. É quase poético! Um especialista em segurança pública que, diante das facções que assolam o país, parece ter sofrido de uma amnésia investigativa seletiva.
É, no mínimo, curioso que alguém que conhece os porões das delegacias não tenha encontrado caminho para indiciar líderes do PCC, do Comando Vermelho ou do Primeiro Comando Puro (PCP). No universo paralelo do relatório do senador Alessandro Vieira, o crime organizado surge como uma entidade abstrata, quase alienígena, sem rosto e sem engrenagens de financiamento — exceto quando esses rostos vestem toga.
Ao poupar facções, milicianos e policiais que operam no balcão de negócios do crime, o senador revelou sua verdadeira prioridade: o desvio de foco. Quem esperava enfrentamento às estruturas do submundo recebeu, em vez disso, um ataque frontal ao Judiciário. A estratégia é cristalina: se não consegue — ou não quis/não quer — atingir o bandido, ataca o juiz para garantir “likes”.
O uso de Anthony Garotinho — um condenado de credibilidade nula — como “trunfo” da CPI para tentar enredar adversários políticos, como André Moura, foi o ápice do amadorismo. Ao transformar a comissão em palco para um ajuste de contas paroquial e recuar em seguida, admitindo que “não havia nada” contra o adversário, Alessandro Vieira, além de expor sua fragilidade argumentativa, corroeu o pouco de seriedade que ainda restava à comissão.
Se o objetivo era mimetizar a retórica bolsonarista para herdar votos da direita, o cálculo foi desastroso: a direita viu um oportunista sem coragem para ir às últimas consequências contra o crime real; a esquerda, um inquisidor de ocasião usando o mandato para fins meramente eleitoreiros. E o eleitor viu um senador transformar uma questão bastante séria em roteiro para TikTok e Instagram.
Em outras palavras, a tentativa de instituir um “controle externo do Judiciário” por meio de um relatório de CPI foi o suspiro final de um mandato que trocou o trabalho técnico pelo corte de rede social. Com um relatório tão abobalhado, o senador Alessandro Vieira não produziu um documento jurídico; produziu um portfólio de campanha.
O país continua com as mesmas facções criminosas, os mesmos milicianos e os mesmos esquemas de corrupção — policial e política. Mas o senador, em sua busca para renovar o mandato, agora tem material suficiente para editar vídeos com trilhas dramáticas. Para um delegado, o saldo é humilhante: o relatório sugere que, na ótica de Alessandro Vieira, o crime não rende indiciamento, mas pode gerar bons cliques.



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