A metamorfose camaleônica do senador Alessandro Vieira, o “indígena” que votou contra os próprios “ancestrais”
- Cleiton Bianucci

- há 12 minutos
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Era uma vez no distante Reino de Brasília, onde as leis da física são frequentemente suspensas e as da lógica, meras sugestões, um nobre senador conhecido como Delegado Alessandro Vieira. Homem de fenótipo alvo, daqueles que a pele reflete o sol do Planalto Central com a intensidade de um farol marítimo, o parlamentar descobriu, em momento oportuno, uma ancestralidade até então adormecida: a tez parda.
Não foi uma revelação mística, daquelas que ocorrem em rituais xamânicos ou após longas meditações. Foi algo, digamos, mais burocrático e estratégico: a conveniência de se enquadrar nos critérios distributivos do cobiçado Fundo Eleitoral. E eis que, num passe de mágica documental diante da Justiça Eleitoral, o homem branco autodeclarou-se pardo. Afinal, por que se contentar com o bolo padrão quando se pode pleitear a fatia reservada aos incentivos afirmativos?
A Justiça Eleitoral, porém, questionou a súbita metamorfose. Analisando os registros anteriores, a Corte barrou o bronzeamento do senador: a autodeclaração, desprovida de lastro a olhos vistos, não garantiu o acesso pretendido aos recursos diferenciados e ainda gerou uma multa. Diante do revés, o Delegado Alessandro Vieira sacou da cartola a sua justificativa genealógica: “Sou descendente de indígenas!”.
E o meio político de Sergipe – e até de Marte! – parou para observar a criatividade do argumento. Porque, vejam só, o nobre parlamentar construiu sua trajetória na cidade, distante de aldeias e fora de qualquer comunidade tradicional. Sua vivência com as pautas da floresta parecia muito mais “conceitual” do que cotidiana.
Mas eis que o senador, em sua atividade legislativa, sequer manteve a coerência com a evocada ancestralidade: ao votar o projeto de lei do Marco Temporal de Terras Indígenas, votou a favor do texto que restringe o direito originário de demarcação territorial reivindicado pelos povos nativos do Brasil. Ficou demonstrado que, para os indígenas, ter um parlamentar alegando laços de sangue, mesmo que distantes, não garantiu apoio na hora do painel eletrônico.
A legislação prevê incentivos de diversidade justamente para reparar desigualdades históricas de representação — não como uma conveniência declaratória de ocasião ajustada aos prazos de registro partidário. O senador, contudo, sustentou que sua remota gota de sangue nativo bastaria para validar o enquadramento. A saga do Delegado Alessandro Vieira ilustra com precisão a plasticidade identitária na política nacional: enquanto para as populações tradicionais a identidade é luta diuturna, tentativa de preservar a cultura e o território, nos bastidores do poder ela pode virar um figurino retórico ajustado conforme a regra do jogo orçamentário eleitoral.
E assim caminha o pragmatismo parlamentar em Brasília: um político autodeclara-se de acordo com o cálculo do momento e, na hora decisiva de uma votação, legisla na direção oposta às causas que sua autodeclaração sugeria defender. A metamorfose camaleônica de Alessandro Vieira, o “indígena” que votou contra os próprios “ancestrais”, é mais um capítulo de um mandato patético.









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