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Política de segurança de André David em Aracaju pune ambulantes, flanelinhas e mães carentes

  • Foto do escritor:  Cleiton Bianucci
    Cleiton Bianucci
  • 3 de jul.
  • 3 min de leitura

Alguma coisa está muito fora da ordem em Aracaju. O grave episódio ocorrido nesta quinta-feira, 2 de junho, na Creche Monsenhor Moreira Lima, no bairro Lamarão, precisa ser tratado com a seriedade que merece (inclusive pela imprensa): uma mãe de adolescente autista, que cobrava o direito do filho à educação, acabou detida pela Guarda Municipal de Aracaju (GMA), acusada de “desobediência”.


Viviane Cristina foi conduzida à delegacia e liberada após a Polícia Civil concluir que não havia elementos suficientes para mantê-la presa. O dado, por si só, já impõe uma pergunta incômoda: se não havia base suficiente para a manutenção da prisão, por que uma mãe, em uma manifestação por professores de apoio e cuidadores, terminou dentro de uma viatura?


A líder comunitária participava de um ato pacífico com cerca de 200 mães e apoiadores na Creche Monsenhor Moreira Lima. O grupo cobrava da prefeita Emília Corrêa a contratação de professores de apoio e cuidadores para crianças neurodivergentes e com necessidades educacionais especiais. Segundo as famílias, a espera já passa de um ano e meio, apesar da promessa da gestão municipal de garantir esses profissionais.


O caso ganhou forte repercussão nas redes sociais pela forma como a Guarda Municipal atuou. A corporação alegou que a manifestação bloqueava a entrada de alunos e funcionários, comprometendo o funcionamento regular da creche. Para justificar a detenção, apontou suspeitas de desobediência, desacato, invasão de prédio público, dano ao patrimônio e exposição de crianças a risco. Também informou que teria usado apenas a força estritamente necessária diante da resistência apresentada.


Um vídeo* gravado durante o ato, no entanto, colocou a versão oficial sob questionamento. A própria Viviane negou ter descumprido ordem ou cometido desobediência. Em sua defesa, resumiu o motivo da presença no local: “Só fui cobrar um professor de apoio para o meu filho”. Manifestantes, lideranças comunitárias e parlamentares repudiaram a ação, classificando a abordagem como truculenta e desproporcional.


O episódio da creche reacende um debate que Aracaju já não pode mais adiar: qual é, afinal, o papel da Guarda Municipal no cotidiano da cidade?


O histórico recente da corporação aponta menos para a mediação e mais para a repressão. Em vez de diálogo, escuta e presença de equipes sociais em conflitos urbanos, o que se tem visto são abordagens impositivas e policialescas. Foi assim com ambulantes. Foi assim com guardadores de carro. E agora se repete contra uma mãe atípica, que apenas cobrava suporte educacional para o filho.


Há uma inversão perigosa em curso: problemas sociais, educacionais e administrativos estão sendo empurrados para a esfera da segurança pública. Falta cuidador? Chama a Guarda. Falta professor de apoio? Manda dispersar. A comunidade protesta? Leva para a delegacia.


É aqui que a reflexão sobre liderança se torna inevitável. O comportamento de quem está na ponta costuma refletir a mentalidade de quem lidera. Na segurança pública, esse risco é ainda mais grave. Quando o comando confunde firmeza com truculência, a tropa passa a enxergar o cidadão vulnerável como inimigo, o protesto como ameaça e a reivindicação social como caso de polícia.


A cultura de enfrentamento implementada na GMA durante a passagem de André David pela Secretaria Municipal de Segurança parece ter deixado marcas profundas. A lógica do confronto, especialmente contra pobres, trabalhadores informais, pessoas periféricas e agora mães em situação de desespero, não desaparece de uma hora para outra. Ela se espalha, cria método e molda comportamento.


O fato impõe questionamentos diretos aos responsáveis políticos por essa engrenagem.


Qual será a posição de André David, que costuma se referir à Guarda Municipal como “minha guarda”? O pré-candidato ao Senado apoiado por Emília Corrêa vai endossar a condução coercitiva de uma mãe de adolescente autista que cobrava um direito básico? Considera razoável transformar uma reivindicação educacional em ocorrência policial? Ou admitirá que a autoridade pública perdeu o limite?


E o que dirá a prefeita Emília Corrêa?


Como chefe do Executivo municipal, ela precisa explicar à cidade como uma mulher pobre, mãe atípica, moradora de uma comunidade vulnerável e desassistida justamente pela ausência de serviços da sua gestão, acabou tratada como ameaça à ordem pública. Haverá apuração rigorosa sobre a conduta da Guarda Municipal? Haverá resposta concreta sobre a falta de cuidadores e professores de apoio? Ou o silêncio será usado, mais uma vez, como estratégia de contenção política?


O caso do Lamarão não foi um mero “desentendimento”. Foi o retrato de uma gestão que falha no serviço público e, quando cobrada pela população, responde com aparato de força.

Em uma democracia, quando a prefeitura falha, a população protesta. Quando a população protesta, a gestão ouve, dialoga e corrige.


Em Aracaju, no entanto, a resposta tem sido outra: cassetete, viatura e delegacia.


E quando uma mãe que luta pelo direito do filho autista à educação termina conduzida pela Guarda Municipal, não é apenas a mãe que está sendo violentada. É o próprio sentido de serviço público que está sendo colocado de cabeça para baixo.


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